Quando eu cheguei devia ser tarde,
já tinham dividido tudo
pelos outros e seus descendentes.
Só havia o céu por cima dos telhados
lá muito alto
para respirar
e sonhar.
Tudo o mais
cá em baixo
era dos outros e seus descendentes.
A terra inteira
e o mar
e o ar
tudo medido
dividido tudo a régua e compasso
pelos outros e seus descendentes.
No mundo inteiro
não faltava ninguém
depois dos outros e seus descendentes.
A terra inteira
era estrangeira
mais este pedaço onde nasci.
Não me deixaram nada
nada mais do que o sonhar.
Eu que sonhasse!
E eu que amo a vida mais do que o sonho
e o sonho e a vida juntos
mais do que ambos separados
e que não sei sonhar senão a vida
e que não sei viver senão o sonho
hei-de ficar aqui
entre os outros e seus descendentes?
Almada Negreiros
Eu respondo:
NÃO

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